segunda-feira, 1 de abril de 2013

Mulher e História: Perfil de Miriam Makeba


Mama África!
A História de como uma empregada doméstica se tornou a voz da África

No dia 4 de março, o Google fez uma homenagem a uma das mulheres que marcaram história por sua força e sua voz. Era o aniversário de 81 anos, caso ainda estivesse viva, de Miriam Makeba, uma cantora e atriz que através do seu sonho sofreu e lutou contra o apartheid na África do Sul.
Zenzile Miriam Makeba nasceu em 4 de março de 1932 em Johanesburgo. Filha de Caswel Makeba, membro da tribo Xhosa, e Christina Nomkomndelo , curandeira espiritual swazi e empregada doméstica, Miriam desde pequena mostrou gosto pela música, apesar de conviver com muitos problemas. Sua mãe foi presa por seis meses, sob a condenação de vender uma bebida ilegal, quando ela tinha 8 dias de vida e seu pai morreu aos seus 5 anos de idade.
Seu gosto pela música de artistas locais e do jazz norte-americano, a fizeram entrar para o coro do Kilmerton Training Institute e aos 13 anos, quase se apresentou para o então rei da Inglaterra George VI, mas a apresentação foi impedida pela chuva.
Com 16 anos, viu o apatheid ser institucionalizado em seu país, e já percebia as implicações que isso poderia ter no seu sonho. Foi obrigada também a deixar a escola e começar a trabalhar como empregada doméstica, o que a fez perceber o grande racismo que existia.
Aos 17 anos engravidou e teve sua única filha Bongi. Logo após o nascimento da filha, Miriam teve câncer e se viu curada por um tratamento não convencional realizado por sua mãe. O relacionamento com o pai de sua filha não durou muito tempo por causa de agressões físicas. A música ficou por um tempo em segundo plano, já que Miriam continuava trabalhando como empregada doméstica para poder criar sua filha.
Na década de 50, ela se juntou aos conjuntos musicais The Cuban Brothers e logo depois Manhattan Brothers, esse último lançando ela ao sucesso através de uma turnê pelo Zimbábue e Congo.  Nessa época ela gravou um de seus grandes sucessos “Pata Pata”, que a fez ser conhecida na África do Sul e que mais tarde foi regravada nos Estados Unidos e se tornou uma das grandes marcas de sua carreira.
Em 1957, Makeba saiu do Manhattan Brothers para formar o grupo The Skylarks, um conjunto feminino que misturava jazz norte-americano com as musicas tradicionais africanas. Atuou, em 1959, na ópera/jazz sul africana King Kong no principal papel feminino, e o destaque da produção alavancou sua carreira internacional e a fez participar do documentário antiapartheid “Come Back, Africa” de Lionel Rogosin.
O filme foi proibido de passar na África do Sul, mas recebeu diversos elogios no Festival de Cinema de Veneza.  Ao final do Festival, Miriam recebeu diversos convites para apresentações nos Estados Unidos e enquanto esperava em Londres pela permissão para entrar no país, ela conheceu Harry Belafonte, que se tornou um grande parceiro em sua carreira.
No início da década de 60, Makeba fez diversas apresentações ao lado de Belafonte incluindo uma apresentação no aniversário do presidente John F. Kennedy, e recebeu um Grammy Award pelo CD que gravou ao lado do parceiro musical.
Como nem tudo são flores, a situação política no país em que nasceu trouxe novos problemas. Quando Miriam tentou voltar à Africa do Sul, em virtude da morte da sua mãe, descobriu que o seu passaporte estava cancelado e que o governo estava proibindo a sua entrada no país. Um discurso contra o apartheid na ONU lhe rendeu a revogação da sua cidadania e a proibição de seus discos no seu país de origem. O tempo de exílio foi minimamente compensado com as 10 cidadanias honorárias que ela recebeu, e assim passou a se considerar cidadã do mundo.
Nesta década, Makeba ainda enfrentou um novo câncer, agora tratado pelos métodos convencionais, se engajou na causa de Martin Luther King, e viu o seu quarto casamento, com Stokely Carmichael, prejudicar sua carreira por causa de diversos cancelamento de shows, sob a suspeita de que ela estaria financiando a causa pela qual ele lutava: os direitos dos negros.
Essa exclusão fez ambos se mudarem para Guiné por quinze anos. Em 1973, já separada ela ainda prosseguia fazendo apresentações na Europa, Ásia e África. Como cidadã honorária em Guiné, trabalhou na ONU e ganhou o Premio da Paz Dag Hammarskjöld em 1986.
A morte da sua única filha e de um neto, em 1985, fez Miriam se mudar para Bruxelas dizendo ter encontrado forças nos dois netos que já tinha, na sua música e na sua fé na figura de Deus. Três anos depois, ela lançou seu primeiro trabalho norte-americano, desde que saiu do país: o disco Sangoma, produzido pela Warner Bros Records, que reunia cânticos a capela e que era uma homenagem a sua mãe.
Com a libertação de Nelson Mandela em fevereiro de 1990, Makeba retornou ao seu país natal em junho do mesmo ano, com o seu passaporte francês. Nessa época, lançou um novo álbum que misturava diversos ritmos, mas não deixava de mostrar a música africana. Fez mais uma turnê mundial, e teve seu álbum Homeland indicado ao Grammy de Melhor Album Musical de World Music, no mesmo ano em que foi nomeada Embaixadora da Boa Vontade da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação.
Com o fim do regime do apartheid, Miriam continuou cantando e contando os problemas que via no seu país, como a epidemia de AIDS e em prol dos deficientes físicos. Anunciou aposentadoria em 2005, mas continuou fazendo apresentações a fim de divulgar a cultura africana. Em 2008, concordou em fazer uma apresentação em Castel Volturno na Itália, em prol de um jovem escritor que delatou uma poderosa máfia e também de seis africanos que foram mortos pela máfia na cidade.
Foi durante essa apresentação, que Miriam passou mal, e morreu nas primeiras horas do dia seguinte, deixando para trás uma história de alguém que se dedicou a realizar o seu sonho e contar aquilo que lhe causava dor, e que acabou se transformando na voz da África.

Parabéns por tudo, Mama África!

Álbuns:

·         Miriam Makeba – 1960

·         The World of Miriam Makeba – 1962
·         Makeba – 1963 
·         Makeba Sings – 1965 
·         An Evening With Belafonte/Makeba – 1965
·         The Click Song – 1965
·         All About Makeba – 1966
·         Malaisha – 1966
·         Pata Pata – 1967
·         The Promise – 1974 
·         Country Girl – 1975
·         Sangoma – 1988
·         Welela – 1989
·         Eyes On Tomorrow – 1991
·         Sing Me A Song – 1993 
·         A Promise – 1994 
·         Live From Paris & Conakry – 1998
·         Homeland – 2000
·         Keep Me In Mind – 2002
·         Reflections – 2004


Por Tainnah Rabelo

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